quinta-feira, 12 de junho de 2008

A Hora Íntima - Vinicius de Moraes


Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: – Nunca fez mal…
Quem, bêbedo, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: – Rei morto, rei posto…
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: – Foi um doido amigo…
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançará um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: – Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: – Não há de ser nada…
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?
Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?

terça-feira, 10 de junho de 2008

domingo, 8 de junho de 2008

Nem dormindo eu consigo te esquecer

Não é fácil ficar sem você, minha menina
Acordar toda noite e ver, você não está
De manhã, quando o sol aparece através da cortina
É difícil conter o desejo de ir te encontrar

E nos cantos vazios da casa procuro teus olhos
Você deve estar por aí numa rua qualquer
Então saio de mim e, sem medo, eu te procuro
Com o meu pensamento enquanto esfria o café

E uma saudade bate forte, dói no fundo
Vontade louca de te amar mais uma vez.
Será que todas as pessoas deste mundo
Fazem amor gostoso como a gente fez?

Foi uma transa, só um caso e nada mais
Foi de repente, sem a gente perceber
Mas foi tão lindo, foi tão bom e é por isso
Que nem dormindo eu consigo te esquecer